21/12/21 - 21:21 - SÉC XXI, RIO BRANCO - ACRE
USINA DE ARTE JOÃO DONATO
DISCURSO DE FUNDAÇÃO
Nolram Rocha
Canto
Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar.
Atuar, atuar, atuar pra poder voar.
Boa noite!
Primeiro passo é tomar conta do espaço
Tem espaço a beça
Só você sabe do seu
Antes ocupe, depois se vire
Olhe em volta, dê um rolê
Não esqueça que você está cercado
Cuidado com as imitações
Torquato Neto
É uma satisfação imensa estar entre amigos para construir uma nova etapa da vida. Por isso, antes de tudo: Obrigado !
Vocês aqui me fazem sentir um pouco mais forte.
O livro é O ponto de mudança, de Peter Brook. Ele tenta responder uma carta:
Prezado Sr. Howe,
Sua carta chegou de improviso e deixou-me em apuros.
O senhor me pergunta como tornar-se um diretor.
No teatro um diretor nomeia-se a si próprio.
Diretor desempregado é
uma contradição em termos,
como pintor desempregado (não como ator desempregado que é uma vítima das circunstâncias).
O senhor se torna diretor dizendo que é diretor e convencendo as outras pessoas de que isso é verdade.
Assim, conseguir trabalho é de certo modo um problema que tem que ser resolvido com os mesmos talentos e habilidades necessários para ensaiar.
Só conheço um caminho: convencer as pessoas a trabalhar consigo e montar algum trabalho - mesmo que não seja pago - para apresentar a qualquer público - num porão, na sala dos fundos de um bar, num pátio de hospital, numa prisão. A energia gerada pelo trabalho é mais importante que qualquer outra coisa.
Portanto, não deixe que nada o impeça de permanecer ativo, mesmo nas condições mais precárias, em vez de perder tempo procurando alguma coisa em melhores condições, que não pode se realizar. No fim das contas, trabalho chama trabalho.
Pois bem, eu disse que era diretor e parece que vocês acreditaram.
Nasce então, aqui, a Gaiata Companhia Teatral.
Mas porque gaiata? Oras, mais gaiato do que o povo acreano, existe?
no substantivo Gaiato é brincalhão; quem gosta de fazer brincadeiras, é muito alegre e divertido.
no adjetivo é Divertido; capaz de divertir, de entreter; repleto de comicidade.
Eu sou gaiato e eu acredito que a companhia gaiata de qualquer pessoa, ou seja, ter um gaiato ao nosso lado traz cor a uma vida preta e branca.
O dicionário ainda complementa: Gaiato é… o contrário de sisudo.
E nessa mesma pegada do humor, eu assumo como a página “desacreditados” o dinossauro como nosso símbolo. Porque se o Acre, “não existe”, é um prazer subverter essa gaiatice nacional com vocês.
Somos o que então? Uma alucinação coletiva? Que saboor!!!
Pois quem me dera ter um dinossauro pra chamar de meu. rsrs
Oswald de Andrade tem um poema chamado “Amor”
no texto do poema está escrito: Humor
Amor
Humor
(e acabou a página…)
Então, é o que eu, como um ator do Zé Celso, desejo a todos nós. Amor, Humor y muito mais. Soltemos nossas imaginações assim como eu soltei quando na infância desenhei esse dinossauro que hoje está colado no caderno de cartas da minha mãe e será o símbolo desta companhia.
Olhem as pernas dele… kkk Divirtam-se comigo com a ludicidade desta obra de arte
A partir de hoje a gente embarca nessa companhia rumo ao despertar da nossa imaginação. Lançamos-nos no mundo com coragem pra fazer farsa, para sermos gaiatos, ousados, políticos e conquistadores.
“Tem espaço a beça, só você sabe do seu”
Já dizia José Ortega y Gasset
“A vida humana não é, nem pode ser ‘exclusivamente’ seriedade, a vida humana é e tem que ser, por vezes, em certos momentos, ‘brincadeira’, farsa; por isso o teatro existe.”
Essa farsa é, para o autor, essência do teatro, seu ser e sua verdade. O que chamamos de “realidade” está carregado de coisas que nos sufocam a ponto de deixar no automático e longe do aqui e do agora.
“A uma criatura assim, o homem, cuja condição é tarefa, esforço, seriedade, responsabilidade, fadiga e pesar, é inescusável algum desvio”.
Daí nasce a ideia do teatro como a possibilidade de criar um outro mundo irreal que valesse a pena irmos até ele.
Agora criamos aqui o nosso mundo
E com a benção do meu primeiro diretor Micael, com a benção do Marcelo Drummond e de artistas locais que abriram e abrem caminhos.
Eu quero que a gente grite o contrário do AI, o IÁ
IÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ
FIM
Nolram Rocha